21.12.08

Capítulo primeiro, da ambientação.

Ele se levantou, pegou sua xícara, e foi até o coffee room. Chegando lá, parou na entrada. A porta se encontrava semi-aberta. Ficou observando enquanto uma moça de cabelos castanhos, presos por um coque que apenas pegava metade, conversava com alguma pessoa. Provavelmente um homem. Ela era do setor de RH. Via-se em seus gestos uma afetação, certos trejeitos eram sinteticamente exagerados.
Entra na sala, despercebido, se serve de café, a última xícara. Fazer um novo bule, política de convivência. A ultima xícara está sempre passada.
-Com licença, sabe me dizer onde se encontra o café?
Um ríspido olhar, uma breve palavra e um leve gesto de mão em direção à dispensa.
A dispensa era padronizada, aquelas compradas em lojas populares por módulos. Ele sabia onde estava o café, ele sabia onde estava o café a 20 anos, ele sabia onde estava o café desde seu primeiro dia.Uma trivialidade a sua pergunta, apenas causada pela vontade de entabular conversação, um mero capricho.
Abriu a dispensa, pegou o café e fez novo bule.
Pegou sua xícara de café frio e passado e retornou para sua sala. Trabalhava em uma grande empresa, sua sala se resumia a três divisórias de um metro, ocupadas por uma cadeira, um computador e uma pequena lata de lixo.Nunca entendeu muito plenamente sua função dentro da empresa.Vez por outra recebia um memorando, corrigia os erros de português, melhorava a forma, passava adiante.De tempos em tempos, era convocado para uma reunião.Comparecia.Abanava a cabeça.Participava da votação.Ouvia tudo atentamente distraído.Voltava para sua sala.
Chegava as sete, saia às seis. Tinha uma hora de almoço. Era sempre pontual, chegava antes dos colegas, seja de manhã para o trabalho, seja do almoço.
Seis horas.Me levanto; até amanhã Gabriel; Tchau Bia; Pedro, boa viagem.
Mais um dia, Menos um dia. De trabalho, de vida.
Voltava para casa sempre andando. Seu salário não lhe permitia um carro, ele não queria, morava perto, caminhar é um excelente exercício. Baixo impacto.Um prédio respeitável, antigo, elevador com porta pantográfica.Um apartamento modesto.Morava sozinho. Aluguel barato.
Chegava em casa toda noite, tomava banho, esquentava alguma comida que ainda houvesse na geladeira; sim, que ainda houvesse na geladeira, raramente aparecia comida feita há pouco tempo; jantava vendo o jornal, olhava alguma matéria importante do jornal, fazia as palavras cruzadas, e ia se deitar. Nessa noite não foi diferente, em nenhuma noite foi diferente.
Despiu sua gravata, sua blusa, seu crachá, agora sim seu horário de trabalho havia acabado. Foi banhar-se. Água fria: ecologicamente correto, bom para a pele, bom para o espírito.Abriu a geladeira, colocou algumas sobras num prato, uma coxa de frango magra, alguns legumes e arroz.Microondas: outra atitude ecologicamente correta.
Senta-se no sofá com seu jantar, vê o jornal, as mesmas notícias. Lava a louça, relega um ultimo olhar para o jornal e vai dormir. Amanhã será um novo dia.
Acorda. Ainda está escuro. Como todo mortal, demora um pouco a sair da cama. Mais um dia, apenas mais um dia, somente mais um dia como outro qualquer, como todos os outros, como qualquer outro. Mais um dia a mais.

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