4.10.10

Vote.

Mais, apenas, uma festa da democracia. Como domingo, sempre.
E nós sentados na chuva, embaixo do bar. Com guarda-chuva-passa-tempo. Com um, com, dois, com três, com todos.

E o rio estoura panturrilha. Escadas e degraus e escadas e degraus. Ir mais alto? Rolar escada abaixo? Por todo corpo corre em comichões e ondas, passando sua carga elétrica por entre todas as células. Pulsa na veia e esquenta a pele. Olha, o olho. As bolas de basquete.

Corre explode-me. Até o cansaço abater o ultimo guerreiro. Guerrilheiro. entrincheirado em si mesmo, sempre sobre si mesmo até não haver mais nada. Nada além das dobras e redobras daquilo que agora se diz Homem.

Pencas da feira. Segunda de nuvem. Domingo de chuva. Sábado de encruzilhadas. Cruz luz arte estrela. "Crucifiquei meu corpo pregando-o ao mundo, não sou mais corpo, mundo."

26.9.10

Domingo?

zuuuuuuuuum
zumbe o carro do caminhão de lixo!
meu deus é domingo, é domingo! é o caminhão de lixo embaixo da minha janela, maldito!

Ah, não tudo bem, diz que foi, diz que tá, diga alto lá.

Ecoa pela caixa oca o crânio de sons e cores dominicais. Ah, domingo!
Domingo sem sol, de nuvens baixas e poeira fria.

Mas serão tantas emoções, tantas sensações, tantas tantas. Tantricos.
Que escorrem pela pele justa, pelo pelo, por você.

Sinta-se pelos domingos dos jornais da banca de jornal do domingo

8.8.10

O encontro.

Passa. Olha. Se dirige. Senta. Estica ambas as mãos sobre a mesa:

- Eu tenho duas mãos para você. Mas a resposta não está em nenhuma delas. Está no fundo dos meus olhos. Quem é você e o que quer saber? Sei que você me procura.

Como decorreria depois essa cena? Não é uma cena. É um acontecimento. Uma forma de arte, uma forma de vida, uma forma de ser. Mas sob qual forma?

Agitação. O caos passa ao redor dos dois, sentados embaixo da tenda, ao lado da igreja. Centro da cidade, terno, saia, sutien, gritos, buzinas, pressa, venda. E os olhos? Fundos? Rasos? Enigmáticos? Convidativos?

Onde estão as minhas respostas? Suas respostas. A pergunta.

Tenho duas mãos. Tenho um passado. Tenho um futuro.

A resposta não está em nenhuma delas. Não está no passado. Não está no futuro.

Está no fundo dos meus olhos. Para se chegar ao fundo devemos mergulhar. Os olhos são uma entrada sem saída.

Quem é você e o que quer saber? É uma pergunta. São duas perguntas. Eu. Vontade. Saber. Individualiza. Dirige. Valoriza. Agora és. Agora queres. Agora sabes.

Sim, retenho todas as respostas. Não importam as perguntas. Nunca importam as perguntas. Sim, importam. As perguntas importam as respostas. Toda pergunta já é sua resposta. Não a pergunta. Quem a pergunta.

Sei que você me procura.

19.7.10

Poema-poeta-poesia ( ou o encontro com o desequilíbrio)

Domingo. O dia não importa. Não importa ser domingo. Visitei Pedro. Sim, Pedro. Que andava desencontrado de mim e eu dele, mas estávamos próximos nos nossos movimentos.
Por acontecimento-acaso, ele me salvou. Mesmo sendo como é, e nunca tendo, tem tido ultimamente para seus trabalhos, e dessa monta, me salvou.
Veio como ele, era Pedro que eu fumaria, mas não sabia. Estava impregnada daquilo, daquela coisa gostosa e doida. Das risadas, dos saltos pulos e cambalhotas, estava (para usar um vocabulário interno dela) com Erê, com Exu.
Apertei-a com carinho, como há muito tempo não fazia. Era um, uno, único. Singular. Era como foi. Até quase seu meio nada mudou, mas, ao se passar do meio se perde o centro e então vem o desequilíbrio. E como nunca, ou como sempre veio. Mas veio Pedro, veio por Pedro e por isso lindo. Chorei de emoção quando realizei que era Pedro mas não era pedra. Vi o pássaro de asfalto, o pássaro no asfalto, o pássaro que era mancha de água no asfalto ( ele voou em poesia). Cantei odes ao infinito e ao momento. Recitei poemas que nunca escrevi. Fui poema-poeta-poesia. Momento.
E nesse ser soltei meu corpo ao som dos pulos que pulavam em mim, e a dança dominou-me. Dança de duas batidas para cada lado. Ritual de índios enfurnados numa varanda. Fumando subi fumaça.
Senti então passar, passar-me. Cena-ator que atua se fazendo cena e nem por isso perde o controle e nem por isso tem o controle e nem por isso é, apenas algo. Apenas? Muito mais do que apenas! Algo! Algo! Muito mais que um eu, muito mais que um isso. Completamente algo.
Algo via e ria histéricamente. Histeria? Não, não. Nada disso. Histericamente. E pensei que devia escrever esse momento. Mas como ter o momento e o escreve-lo simultâneamente? Jamais, assim perderia o momento. Então percebi que talvez não devamos escrever tudo, não devamos escrever todas as nossas poesias, os nossos sentimentos, as nossas sensações. Só assim podemos realmente ter poesia. A poesia não é a escrita do poeta, a poesia é aquilo que o poeta nunca escreveu.
O lirismo? O poema? A produção? São restos, são o que o poeta tem de mais raso, são aquilo que o poeta não quer. O poeta faz poemas ao escrever – mas o poema não é o que ele escreve. O poeta-poesia é o que falta, o buraco, a falha, o que ficou calado. Fazer poesia não é contar o que se sente, não é fazer coisas bonitas... Fazer poesia é jogar fora, de qualquer modo que seja, aquilo que não queremos mais e o que sobrar, isso sim é o poema-poeta-poesia.
O fazer não deve ser medido pelo que está posto, pelo que é dado. O fazer é exatamente o que não foi posto, o que não foi dado.

18.7.10

Sentir a profundidade.

Sinta-se. Sinta-se por dentro. Sinta-se por fora. Sinta-se por dentro e por fora.
E compare; como é ser por dentro? Como é ser por fora? Tocam-se.
Pele.

Somos um plano dobrado e redobrado para finalmente formar - forma-conteúdo - formas e conteúdos. Qual a profundidade? Epitelial.

Aprofunde-se. Onde? Na pele.

Pela pele passa, pela pele pende, pela pele perfura, pela pele pela, pela pele, pela pele, pela pele.

Tridimensionalidade dobra de bidimencionalidade.

Ponha-se a questão do desequilíbrio no plano.