Domingo. O dia não importa. Não importa ser domingo. Visitei Pedro. Sim, Pedro. Que andava desencontrado de mim e eu dele, mas estávamos próximos nos nossos movimentos.
Por acontecimento-acaso, ele me salvou. Mesmo sendo como é, e nunca tendo, tem tido ultimamente para seus trabalhos, e dessa monta, me salvou.
Veio como ele, era Pedro que eu fumaria, mas não sabia. Estava impregnada daquilo, daquela coisa gostosa e doida. Das risadas, dos saltos pulos e cambalhotas, estava (para usar um vocabulário interno dela) com Erê, com Exu.
Apertei-a com carinho, como há muito tempo não fazia. Era um, uno, único. Singular. Era como foi. Até quase seu meio nada mudou, mas, ao se passar do meio se perde o centro e então vem o desequilíbrio. E como nunca, ou como sempre veio. Mas veio Pedro, veio por Pedro e por isso lindo. Chorei de emoção quando realizei que era Pedro mas não era pedra. Vi o pássaro de asfalto, o pássaro no asfalto, o pássaro que era mancha de água no asfalto ( ele voou em poesia). Cantei odes ao infinito e ao momento. Recitei poemas que nunca escrevi. Fui poema-poeta-poesia. Momento.
E nesse ser soltei meu corpo ao som dos pulos que pulavam em mim, e a dança dominou-me. Dança de duas batidas para cada lado. Ritual de índios enfurnados numa varanda. Fumando subi fumaça.
Senti então passar, passar-me. Cena-ator que atua se fazendo cena e nem por isso perde o controle e nem por isso tem o controle e nem por isso é, apenas algo. Apenas? Muito mais do que apenas! Algo! Algo! Muito mais que um eu, muito mais que um isso. Completamente algo.
Algo via e ria histéricamente. Histeria? Não, não. Nada disso. Histericamente. E pensei que devia escrever esse momento. Mas como ter o momento e o escreve-lo simultâneamente? Jamais, assim perderia o momento. Então percebi que talvez não devamos escrever tudo, não devamos escrever todas as nossas poesias, os nossos sentimentos, as nossas sensações. Só assim podemos realmente ter poesia. A poesia não é a escrita do poeta, a poesia é aquilo que o poeta nunca escreveu.
O lirismo? O poema? A produção? São restos, são o que o poeta tem de mais raso, são aquilo que o poeta não quer. O poeta faz poemas ao escrever – mas o poema não é o que ele escreve. O poeta-poesia é o que falta, o buraco, a falha, o que ficou calado. Fazer poesia não é contar o que se sente, não é fazer coisas bonitas... Fazer poesia é jogar fora, de qualquer modo que seja, aquilo que não queremos mais e o que sobrar, isso sim é o poema-poeta-poesia.
O fazer não deve ser medido pelo que está posto, pelo que é dado. O fazer é exatamente o que não foi posto, o que não foi dado.
Big Lie
Há 15 anos
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