30.6.10

Passe.

Quanto tempo faz que as coisas voltaram?
Mas como saber do tempo se as coisas que voltaram são sem tempo, e ao voltarem nos tiram o tempo?

Não há tempo possível. Apenas uma sucessão de agoras. Agora. Agora.

Leve brisa leva o tempo embora e resta apenas o crepitar da brasa

Lave o carro. Quebre a louça. Deite na mesa. Queime o cabelo. Corte a sobrancelha.

não há janelas no espaço, mas há espaço nas janelas e molduras nos quadros.

Passe.

29.6.10

O dia passa, as sombras crescem.

O sol faz sombra.

estou na sombra, e é fresca, fria, úmida. O vento corta, a grama molha, o frio vem.

Qualquer coisa.

27.6.10

Cadencie-se a vida. Ela é sempre no desequilíbrio... aquele segundo entre o cair e o levantar, aquele segundo no ar.

Essa é a vida.
As pernas dançando alucinadas, o tronco se retorcendo em sensações do ar em contato com a pele, o nariz respirando o mundo e sugando a vida.

Assim se dá o desequilíbrio.

Eu sou no meu desequilíbrio, sendo aquele que não caiu, mas quase foi, no momento sem apoios, sem chão e sem céus.

Lapsos rasgos luzes correm ao redor.

Você sente?
você lembra?
de que importa tudo isso...

é insignificante, como a brisa que corta a tarde e derruba a folha.

Somos a folha que cai dançando.

22.6.10

Tarde tardia

Olhos. Olhos de tarô cigano. Risonhos. Um leve sorriso de deboche de canto de boca. Tudo sabem e nada contam. Riam-se entre cataratas negras que lhes escondiam se mostrando. Mostrando a eles também. Brincavam de olhar... não. Brincavam de espiar, isso sim. Tinham a mesma profundeza dos oceanos e das ondas que correm sobre as areias da praia.
Trouxeram junto com eles o por-do-sol. Não aquele por-do-sol que é quase noite, mas aquele por-do-sol de ipanema onde o sol se vai, mas a luz, preguiçosa, se arrasta longamente, puramente carioca. A noite principiava devagar, como as mães carinhosas que suavemente ninam seus filhos e os velam, após adormecerem, para terem certeza que não voltarão a acordar.
Se instaurou magnífica a noite-lua, não a princesa invernal; era quente, voluptuosa, tropical. Menina de saia e blusinha de alça mexendo os cabelos ao som do violão, rodopiando no batuque negro dos tambores de fogo; noite nossa, noite-lua, noite-quente.
Cada passo ecoava no corpo em meio aquele turbilhão-dia de noite nova. Todos apressavam: tinham lugares para ir, lugares para vir, afazeres, coisas por fazer, horas, minutos segundos tinham pressa. Era isso. Todos tinham pressa. era ainda o reflexo do sol se manifestando naquelas pessoas. Com o passar das horas esfriam um pouco e a pressa diminui, mas não chega a ir embora. Não, não. A pressa é o virus do nosso tempo. Então vá, corra, ande logo você está atrasado.
Fica assim para mim os olhos, os olhares e o fim da tarde mole-mole indo, indo; indo. indo... in... do...

21.6.10

Trago Pulso

A cada tragada meu peito pulsa, pulsa, pulsa
E eu ?

Caminho.
Meio afetado...
Pelo consumo, insumo.
Caindo em lados e laterais de retas quase normais
Paralelas entre si a suas transversais
No equilíbrio samba da corda bamba
Segue como um jegue o que for diferente
De outra postura, tecitura, ou altura de pedra dura.

Sou só.
Sou.
Só.

16.6.10

tudo que for preciso.

O que dizer?
direi.. cerveja barata!
onde está o ácido?
sendo visto.
e o que mais?
mais nada...
mais nada...

15.6.10

Comece, olhando como alguém que olha alguém que olha alguém que olha alguém que escreve. E daí siga em diante.
Uma cena. Cena de comercial de televisão.
Dobre-se sobre e ao infinito.


Pontuando-se as pontuações se tornam pontuáveis em suas possíveis variantes invariáveis , dentro, é claro, de seus devidos sistemas lógicos.


Deve A implicar em B sempre será.
Sempre será a árvore verdejante
E se verá logo em seu semblante
Os resquícios do trajeto feito pela fibra ótica
E essa será uma ocasião ótima para afirmar
A sua impossibilidade.

Dia de Chuva

Sobe a fumaça do meu baseado...

Tão poética em seus devaneios, tão densa


Intensa

Tensa repensa o que poderia ter sido remoído

Antes de apertado, ah, meu baseado.


E o que há contigo? Algo diferente

Dia de chuva, entende?

Entendes doutor, hoje chove

e... e... e... e isso muda tudo!

Compreende? Tudo, doutor!

Tudo!


Será?



Que mude o que mudar.

Mudaremos tudo para que tudo continue como está.


Há!

... então, você, ainda, quer


, então você ainda quer.

Ponta, janela.

Vou à janela pegar um ar

Um ar de poesia matinal

Que cai, cai, cai... cai sem controle

Cai sem poder mais voltar.

Pobre, pobre...

Apenas ponta

Jaz aqui agora morta

Seu corpo se foi com o vento

Seu corpo caiu pelo tempo

Seu corpo... ponta... se foi.

E não foi querido, foi caído.